Crítica | Não vamos pagar nada

A produção da H2O Films, dirigida por João Fonseca, que vem estrear no final deste ano, está pronta para encher o seu dia de risadas. No filme, vemos um pouco sobre essa sopa de críticas sociais e humor cultural.

Ademais, ser uma produção de comédia não limita Não Vamos Pagar Nada somente a piadas. No filme, podemos ver claras críticas às circunstâncias comuns na vida dos brasileiros de classe baixa.

O filme começa em um supermercado, onde a protagonista Antônia (Samantha Schmütz) fazia suas compras e descobre, para seu desagrado, que os preços no mercado estão subindo e que não aceitam mais fiado. Antônia, que estava desempregada, então decide não levar nada.

A situação no supermercado complica quando todos os clientes começam a reclamar dos preços e mudanças na política do valor dos produtos. O novo dono do mercado, então, aproveita que é o único estabelecimento no bairro e acaba sendo abusivo com os clientes, que ficam revoltados.

Uma frase que se encaixa perfeitamente no filme, e na situação de muitos brasileiros fora dele, é “sem emprego, sem dinheiro, sem comida”

As mudanças no mercado pegam a todos de surpresa. Nenhum dos clientes é capaz de lidar com os preços em alta, mas são tratados com indiferença pelo proprietário, que graças a carência de concorrentes, não precisa se preocupar em agradar aos clientes. Pela falta de algo melhor, o povo é obrigado a lidar com o que tem por ali. Você já esteve em alguma situação que te levou a pensar na frase acima?

Sem emprego, não se tem dinheiro. Sem dinheiro, não se compra comida. Sem conseguir sequer comprar alimentos, só resta às pessoas o desespero. Olhando assim, é fácil entender como os clientes no mercado chegaram ao ponto de saquear os produtos.

Além das consequências do desemprego, que é a crítica mais explorada no filme, também é tratado a questão de relação da polícia com as comunidades. De um lado, as pessoas desesperadas sem emprego e mal tendo o que comer, de outro, aqueles que lutam para manter o emprego, os obrigando, em certos casos, a ir contra quem deveriam proteger. Nenhum dos lados possui muita escolha, pois ambos estão tentando sobreviver.

A questão da falta de opções (principalmente de comida) é tão extrema que alguns personagens chegam até a comer alimento para animais, e tentam aceitar isso, afinal, o que mais podem fazer?

E se você pensa que a polícia está livre de sofrer só por que são os responsáveis por aplicar a lei, está enganado. Subordinados ao comandante do batalhão, que é amigo do novo dono do mercado, os policiais são obrigados a fazer o trabalho duro, enquanto que seu superior trama esquemas com o amigo proprietário.

Tantos temas terrivelmente comuns na nossa cultura, como extorsão, desemprego, corrupção e abuso de poder são desenrolados na trama do filme com muita naturalidade, ao mesmo tempo que nossa protagonista Antônia vai tentando se desenrolar na situação em que se meteu, criando uma bola de neve de improvisos, arranjando problemas mais rápido do que é capaz de resolvê-los.